Sempre me considerei um homem comum, com sonhos, desejos, responsabilidades e uma vida como a de qualquer outro. A diferença é que convivo com a bexiga hiperativa desde a infância.
Por muito tempo, segui minha rotina administrando a vontade urgente de mijar. Mesmo enquanto trabalhava, estudava, dirigia ou me divertia, minha atenção ficava presa à bexiga: onde havia um banheiro, quanto tempo eu conseguiria segurar e o que aconteceria se viesse um espasmo.
Por conta da bexiga hiperativa, eu já tinha usado fraldas em situações em que procurar um banheiro o tempo todo tornava tudo mais cansativo: reuniões longas, cinema e viagens de avião, especialmente quando estava na poltrona do meio ou na janela. Naquela época, a fralda era uma exceção. Hoje entendo que já era uma forma legítima de cuidar de mim e viver com mais tranquilidade.
Em 2021, peguei Covid-19. Depois disso, os espasmos da bexiga pioraram e ficaram praticamente impossíveis de controlar. A fralda, que antes era um recurso para determinadas situações, passou a fazer parte da minha rotina.
Quando me tornei incontinente e precisei depender das fraldas todos os dias para administrar minha bexiga, minha vida mudou completamente. Coisas que eu fazia espontaneamente começaram a exigir planejamento. Precisei mudar hábitos, criar disciplina e aprender a lidar com uma realidade que não havia escolhido.
Passei por vários urologistas e tentei medicações que me causavam muitos efeitos colaterais. Como ainda estávamos na pandemia, atravessei essa fase enquanto trabalhava de casa. O trabalho remoto me deu alguma privacidade para começar a me adaptar à nova rotina, mas nem por isso foi fácil.
Durante algum tempo, tratei a incontinência como um segredo. Sentia vergonha e me perguntava o que aquela mudança dizia sobre mim como homem. Parei de sair de casa e entrei em depressão.
Eu já sabia que a fralda podia me ajudar. Mesmo assim, sentia culpa por escolher usá-la, como se ela só fosse legítima quando não restasse nenhum controle. Agora entendo que uma coisa não anula a outra: necessidade, escolha, segurança e conforto podem coexistir.
Naquela época, eu não encontrava informações que ensinassem um homem adulto a usar fraldas e seguir com a vida. Quando esse assunto aparecia, o homem que usava fralda era tratado como motivo de piada ou como um fracassado.
Em 2022, encontrei estudos, informações e relatos que me ajudaram a compreender melhor o que estava acontecendo. Descobri que outros homens também viviam situações parecidas e percebi que eu não estava sozinho.
Essa descoberta foi importante, mas a aceitação não aconteceu de uma hora para outra. Precisei enfrentar o preconceito que eu mesmo carregava.
Ao longo desse processo, comecei a perceber o quanto a obrigação de ficar seco estava consumindo minha vida. Tentar não me mijar era uma tarefa que nunca acabava. Eu precisava prestar atenção no corpo o tempo todo, reagir a cada espasmo, procurar banheiros e calcular o risco de qualquer atividade. Mesmo quando nada acontecia, a preocupação continuava ocupando espaço na minha cabeça.
Mesmo já usando fraldas, durante algum tempo ainda tentei ficar seco a qualquer custo. Demorei para entender que podia confiar na proteção e deixar de organizar minha vida em torno dessa obrigação.
Quando comecei a confiar de verdade nas fraldas, pude voltar minha atenção para o que estava fazendo e recuperar o direito de andar distraído.Só assim a minha relação com a fralda mudou. Passei a enxergá-la como aquilo que ela realmente é para mim: uma solução prática que me dá segurança, autonomia e liberdade.
Usar fralda não me diminui nem me torna menos homem. Ela me permite viver sem medo de mijar na roupa ou na cama e sem precisar organizar toda a minha vida em torno de um banheiro.
Eu também precisei aprender. Tive que descobrir como escolher o modelo adequado para cada situação, vestir e ajustar corretamente, confiar na absorção, relaxar para mijar, entender a hora de trocar e cuidar da higiene e da pele.
Quando a gente precisa aprender a usar fraldas depois de adulto, tudo pode parecer estranho e complicado. Mas, com o tempo, o que parecia um obstáculo passou a me trazer uma tranquilidade que eu nem imaginava.
A incontinência continua exigindo cuidados. Preciso pensar em trocas, roupas, higiene e proteção suficiente para cada situação. Hoje, porém, esses cuidados fazem parte do meu dia sem colocar a bexiga no centro da minha vida.
Eu trabalho, viajo, participo de eventos, vou ao supermercado e treino na academia. Posso ir a qualquer lugar. Faço tudo de fralda.
A fralda não tornou meu mundo menor. Pelo contrário: me deu segurança para recuperar minha vida e vivê-la plenamente.
Hoje percebo que, antes de minha incontinência piorar, eu me comparava com os outros e quase sempre me achava menor. Olhava para meu corpo, minha carreira, meus relacionamentos e minha vida procurando aquilo que me faltava.
A incontinência me levou ao fundo do poço, mas também me obrigou a mudar esse olhar. Para aceitar minha condição, precisei enfrentar dentro de mim o mesmo preconceito que a sociedade dirige a um homem que usa fralda.
Quando comecei a me libertar desse preconceito, parei de olhar apenas para as minhas falhas e comecei a reconhecer minha força.
Nesse novo normal, aprendi a cuidar de mim, a respeitar minha história e a enxergar meu corpo com uma admiração que nunca havia sentido. Não precisei vencer a incontinência nem voltar a ser o homem que era antes. Eu me tornei um homem mais livre, mais consciente e com mais amor-próprio.
Se você está no começo desse caminho, talvez ainda só consiga enxergar medo, raiva ou vergonha. Eu também já estive nesse lugar. Não vou dizer que é fácil nem que tudo muda de uma hora para outra. Só quero que você saiba que esses sentimentos não precisam ser o fim da sua história.
Você não precisa voltar a ser o homem de antes. Pode se tornar um homem mais forte e mais livre — de fralda e vivendo plenamente.
Talvez sua história seja diferente da minha. Você pode mijar na cama, ter pequenos escapes, usar fralda apenas para dormir, usá-la em determinadas situações ou simplesmente escolher essa segurança porque ela melhora a sua vida.
Você não precisa justificar sua escolha nem provar que é "incontinente o suficiente". Se a fralda faz parte da sua realidade, esta mensagem também é para você.
Eu sou incontinente. Uso fralda. Não digo isso com vergonha. Digo com orgulho.
Tenho orgulho de quem sou e do homem que me tornei. Quando me vejo de fralda no espelho, vejo alguém que enfrentou o próprio preconceito, saiu do fundo do poço e voltou a viver. Vejo um homem inteiro, capaz e livre para ser quem é.
E penso: "Nossa, esse cara é demais."
